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Como a ciência está se preparando para a próxima pandemia

Durante décadas, cientistas tentaram responder a uma mesma pergunta: qual será o próximo vírus capaz de provocar uma pandemia? Seis anos depois da covid-19, essa busca continua. Mas a experiência da maior emergência sanitária deste século mudou profundamente a forma como o mundo se prepara para enfrentá-la.

Especialistas consideram inevitável que novas epidemias e pandemias continuem surgindo nas próximas décadas, impulsionadas por fatores como mudanças climáticas, alterações ambientais, expansão urbana e a circulação cada vez maior de pessoas e animais. A forma de enfrentar esse risco, porém, mudou profundamente.

O Olhar Digital conversou com especialistas para entender como a experiência da covid-19 transformou a preparação para futuras pandemias, quais avanços científicos já fazem diferença e por que a próxima batalha contra uma doença desconhecida provavelmente começará muito antes de o primeiro paciente chegar a um hospital.

Profissionais de saúde atendem a população em um centro de vacinação em massa contra a covid-19.
A resposta global à covid-19 acelerou investimentos em vacinas, vigilância epidemiológica e capacidade laboratorial, transformando a forma como o mundo se prepara para futuras pandemias – Imagem: Toto Santiko Budi / Shutterstock

A ciência mudou a forma de enxergar futuras pandemias

Até poucos anos atrás, a preparação para pandemias era guiada por uma pergunta aparentemente simples: qual será o próximo vírus capaz de provocar uma crise sanitária global? A resposta orientava pesquisas, investimentos e programas de vigilância voltados principalmente para patógenos já conhecidos por representarem risco à saúde pública.

Em janeiro de 2020, o mundo ainda tentava entender qual era o novo coronavírus. Hoje, a principal pergunta da ciência já não é apenas qual será o próximo vírus, mas como responder rapidamente mesmo quando ele ainda é desconhecido.

Para o sanitarista Gonzalo Vecina Neto, fundador e ex-presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), o principal legado da crise foi o conjunto de aprendizados incorporados pelos sistemas de saúde. Segundo ele, a covid-19 deixou lições sobre medidas de isolamento, proteção contra doenças respiratórias, organização da resposta sanitária e capacidade diagnóstica que hoje fazem parte da preparação para futuras emergências.

A principal consequência dessa mudança foi abandonar a ideia de que bastava prever qual seria o próximo vírus. A preparação passou a priorizar ferramentas capazes de responder rapidamente a diferentes ameaças, inclusive às que ainda nem foram identificadas.

Essa nova abordagem foi incorporada pela Organização Mundial da Saúde (OMS), que revisou em 2024 sua estratégia de pesquisa e desenvolvimento para epidemias. A organização continua mantendo uma lista de patógenos prioritários, mas ampliou seu foco para famílias inteiras de vírus e bactérias e reforçou o conceito da Doença X, usado para representar uma futura pandemia causada por um agente infeccioso ainda desconhecido.

O que é a Doença X?

Ao contrário do que o nome sugere, a Doença X não é uma enfermidade específica nem um vírus que já esteja circulando. Ela representa a possibilidade de que a próxima emergência sanitária seja provocada por um microrganismo que a ciência ainda não conhece.

Para a infectologista Luana Araújo, médica especialista em doenças infecciosas pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e mestre em Saúde Pública pela Johns Hopkins Bloomberg School of Public Health, nos Estados Unidos, essa é justamente a principal mudança de raciocínio na preparação para futuras pandemias. “Temos uma lista de conhecidos, mas pode vir de um desconhecido”, resume. Em outras palavras, embora a OMS mantenha uma lista de patógenos considerados prioritários, a próxima grande ameaça pode surgir justamente de um agente ainda não catalogado pela ciência.

Em vez de concentrar investimentos em um único vírus, a estratégia passou a priorizar plataformas de vacinas, sistemas de vigilância e métodos diagnósticos capazes de serem adaptados rapidamente a diferentes cenários — uma transformação que se tornou central após a pandemia de covid-19.

H5N1 continua no topo da lista de preocupações

A possibilidade de uma Doença X não significa que as ameaças já conhecidas tenham deixado de preocupar. A lista da OMS continua orientando prioridades de pesquisa e vigilância justamente porque reúne agentes infecciosos capazes de provocar surtos ou epidemias enquanto um novo patógeno ainda não surge.

Os vírus respiratórios continuam ocupando posição de destaque por causa da facilidade com que conseguem se espalhar entre pessoas. Entre eles, o principal foco de atenção hoje é o H5N1, vírus da influenza aviária que circula amplamente entre aves, já foi detectado em diferentes mamíferos e, em casos esporádicos, também infectou seres humanos.

Segundo Luana Araújo, o receio é que novas mutações permitam que o vírus adquira transmissão sustentada entre pessoas, criando condições para uma nova pandemia. Além do H5N1, coronavírus como os responsáveis pela SARS e pela MERS continuam sendo monitorados, assim como vírus como Ebola, Crimeia-Congo e Zika, todos pertencentes a famílias de patógenos consideradas prioritárias pela OMS por seu potencial de provocar surtos importantes.

Uma ameaça que não espera pela próxima pandemia

Mas nem toda ameaça à saúde pública depende do surgimento de um novo vírus. Antes mesmo de listar os patógenos que mais preocupam a comunidade científica, Luana Araújo chama atenção para uma crise que já está em curso: o avanço da resistência aos antimicrobianos.

O fenômeno ocorre quando bactérias e outros microrganismos deixam de responder aos medicamentos utilizados para combatê-los, tornando infecções antes facilmente tratáveis cada vez mais difíceis de controlar. Como alerta a infectologista, “a gente está perdendo oportunidade de tratamento para bactérias que antigamente eram consideradas fáceis de serem tratadas”. Hoje, afirma, muitas delas já não respondem aos medicamentos disponíveis.

Embora não tenha potencial para provocar uma pandemia da mesma forma que um vírus respiratório, a resistência aos antimicrobianos já é considerada uma das maiores ameaças à saúde global e passou a integrar as estratégias internacionais de preparação para futuras emergências sanitárias.

A corrida contra uma pandemia agora começa com vantagem

Se a próxima pandemia surgir amanhã, cientistas provavelmente ainda não saberão qual será o vírus nem como ele se comporta. Mas uma coisa mudou desde 2020: eles não precisarão começar toda a resposta do zero.

A pandemia de covid-19 acelerou tecnologias que já vinham sendo desenvolvidas havia décadas e mostrou que é possível reduzir drasticamente o tempo entre a identificação de um novo patógeno e o desenvolvimento das primeiras ferramentas para combatê-lo.

Mais do que produzir uma vacina em tempo recorde, a principal herança da covid-19 foi deixar parte da estrutura de resposta pronta para futuras emergências. Para Gonzalo Vecina Neto, responder rapidamente depende, antes de tudo, de identificar rapidamente uma nova doença. “Aprendemos também a questão do diagnóstico, que tem que ter uma capacidade de realizar RT-PCR, se você quiser estar à frente da doença”, resume.

Preparar-se antes da emergência

Se identificar rapidamente uma nova doença é o primeiro passo, desenvolver ferramentas para combatê-la também deixou de começar do zero. A experiência da covid-19 mudou a estratégia de desenvolvimento de vacinas. Em vez de esperar que uma nova doença apareça para iniciar todo o processo, pesquisadores passaram a desenvolver previamente plataformas e protótipos para famílias de vírus consideradas mais preocupantes.

Pipeta deposita amostra em laboratório durante pesquisa para desenvolvimento de tecnologias biomédicas.
A estratégia atual busca desenvolver plataformas capazes de ser rapidamente adaptadas a novos vírus quando uma emergência sanitária surge – Imagem: Janon Stock / Shutterstock

Como explica a infectologista Luana Araújo, “isso nos traz uma mudança de preparação para o futuro, que talvez permita com que a gente desenvolva até certo ponto algumas tecnologias e deixe aquilo na manga”. Assim, diante de uma emergência, parte do trabalho já estará pronta.

Essa abordagem inspirou iniciativas como a Missão dos 100 Dias, uma coalizão internacional que pretende disponibilizar uma vacina cerca de cem dias após a identificação de um novo patógeno. A ideia é adaptar rapidamente uma plataforma já existente ao novo agente infeccioso e iniciar os testes clínicos.

Um dos principais exemplos dessa estratégia são as plataformas de RNA mensageiro (mRNA). Embora tenham se tornado conhecidas durante a pandemia, elas já vinham sendo estudadas para outras aplicações, especialmente no tratamento do câncer. A covid-19 acelerou sua validação e demonstrou que podem ser adaptadas rapidamente para enfrentar novos vírus.

Luana compara esse processo a “aqueles brinquedos de criança de blocos de montar”. Depois que pesquisadores sequenciam geneticamente um patógeno, parte da estrutura já está pronta: basta reorganizar esses “blocos” para produzir um candidato a vacina. Esse modelo, afirma a infectologista, parece hoje “mais inteligente, mais lúcido do que investir todos os ovos na mesma cesta”, já que permite responder a diferentes ameaças sem começar do zero.

Laboratórios ganharam velocidade

A capacidade de identificar rapidamente um novo patógeno só produz resultados quando laboratórios conseguem transformar esse alerta em exames, sequenciamento e monitoramento contínuo. Essa infraestrutura também evoluiu desde a pandemia.

Para o patologista clínico Carlos Alberto Aita, médico do DB Diagnósticos, “as novidades tecnológicas desenvolvidas durante e após a pandemia da Covid-19 foram incorporadas e hoje fazem parte das rotinas laboratoriais”. Segundo ele, “a capacidade de realização dos exames para identificação de patógenos com rapidez, qualidade e precisão faz parte da rotina dos laboratórios clínicos”, resultado da expansão das técnicas de biologia molecular, da automação e da consolidação dos testes rápidos.

Na prática, isso significa que cientistas conseguem descobrir mais cedo quando um novo agente começa a circular. O sequenciamento genético tornou-se mais acessível e as redes de monitoramento permitem reunir rapidamente informações vindas de diferentes laboratórios, aumentando as chances de identificar surtos ainda nas primeiras notificações.

A próxima pandemia provavelmente não vai começar em um hospital

Quando um paciente chega ao pronto-socorro com sintomas de uma doença desconhecida, a oportunidade de impedir uma pandemia talvez já tenha começado a escapar.

É por isso que, para o sanitarista Gonzalo Vecina Neto, a preparação para futuras emergências precisa começar muito antes dos primeiros casos humanos. Na avaliação dele, o país deveria manter uma rede permanente de vigilância epidemiológica capaz de acompanhar o que acontece em diferentes biomas brasileiros, identificando alterações na fauna e no ambiente antes que um novo patógeno alcance a população.

“Quando começa, por alguma razão, a morrer algum tipo de bicho, quem mora na região tem condição de descobrir que está acontecendo alguma coisa diferente. Quando acontece alguma coisa no mundo animal, tem algum tipo de micro-organismo atuando”, afirma. Para ele, uma rede de informantes formada por indígenas, ribeirinhos e moradores dessas regiões poderia permitir que esses sinais chegassem rapidamente às autoridades de saúde.

Essa lógica amplia o próprio conceito de vigilância epidemiológica. Em vez de concentrar a atenção apenas em hospitais e laboratórios, o objetivo passa a ser acompanhar continuamente o que acontece em florestas, propriedades rurais, rios, cidades e outros ambientes onde vírus, animais e seres humanos convivem de forma cada vez mais próxima.

Saúde humana, animal e ambiental fazem parte do mesmo sistema

Essa mudança de perspectiva dialoga diretamente com o conceito de One Health, ou Saúde Única. Como resume a infectologista Luana Araújo, “a saúde humana, a saúde animal e a saúde do meio ambiente são uma coisa só”. Em vez de tratar essas áreas separadamente, a abordagem parte do princípio de que elas funcionam como um único sistema.

Pesquisadores coletam amostras em área de floresta durante trabalho de monitoramento ambiental e vigilância de doenças.
A vigilância ambiental busca identificar sinais de novos agentes infecciosos antes que eles cheguem à população humana, princípio central da abordagem One Health – Imagem: Zen Wuak / Shutterstock

“A gente tem que lembrar que vivemos em sistemas complexos”, afirma a infectologista. Mudanças climáticas, desmatamento, urbanização acelerada, circulação de pessoas, pobreza e insegurança alimentar interagem entre si e aumentam as oportunidades para que vírus e outros microrganismos atravessem a barreira entre animais e seres humanos. “Se a gente desequilibra uma dessas pernas, todas as outras vão sofrer”, resume.

Os efeitos dessa transformação já podem ser observados. O mosquito transmissor da dengue, por exemplo, passou a ser encontrado em regiões onde antes não sobrevivia, e a doença deixou de ser restrita aos países tropicais para se tornar endêmica em partes do sul da Europa. Ao mesmo tempo, o desmatamento aproxima populações humanas de ambientes que abrigam microrganismos ainda desconhecidos.

A Amazônia tem milhões de vírus desconhecidos e a gente não tem condição de avançar o conhecimento no ritmo em que a gente está se expondo.

Luana Araújo, infectologista

Esses sinais, porém, precisam chegar rapidamente aos laboratórios. É nesse ponto que a vigilância ambiental se conecta à medicina diagnóstica. Como explica o patologista clínico Carlos Alberto Aita, “as redes integradas para monitoramento dos dados permitem que, logo após uma pequena quantidade de notificações, seja possível atuar rapidamente para minimizar a disseminação de novos casos”.

Isso depende de uma rede capaz de reunir informações produzidas em diferentes regiões, identificar padrões incomuns e encaminhar rapidamente amostras para sequenciamento genético. Quanto menor o intervalo entre a identificação de um novo microrganismo e sua caracterização em laboratório, maiores são as chances de conter um surto antes que ele se espalhe.

No fim, prevenir a próxima pandemia depende de uma cadeia contínua de vigilância. Ela começa na observação do ambiente, passa pela identificação de alterações incomuns na fauna, chega aos laboratórios responsáveis por identificar o agente infeccioso e termina na tomada de decisões pelas autoridades de saúde. Quando essa cadeia funciona, a resposta pode começar muito antes de o primeiro paciente entrar em um hospital.

O Brasil aprendeu com a covid, mas ainda testa suas próprias lições

O Brasil conseguiu desenvolver testes em poucos meses durante a pandemia da covid-19. Também ampliou laboratórios, acelerou o sequenciamento genético e fortaleceu parte da vigilância epidemiológica. Seis anos depois da maior emergência sanitária deste século, hospitais, laboratórios e profissionais de saúde incorporaram tecnologias e protocolos que permitem respostas mais rápidas diante de novas doenças infecciosas. Mas isso basta para enfrentar a próxima pandemia?

Na avaliação do sanitarista Gonzalo Vecina Neto, a pandemia deixou avanços importantes, mas o país ainda está longe de estar plenamente preparado para enfrentar uma nova emergência sanitária.

Segundo ele, o maior desafio deixou de ser aprender com a covid-19 e passou a ser manter estruturas permanentes capazes de responder rapidamente a novas crises. Entre elas estão o planejamento para eventos extremos, o fortalecimento da vigilância epidemiológica e a ampliação da capacidade de resposta do sistema de saúde.

Profissionais processam amostras em cabine de segurança biológica durante rotina de laboratório clínico.
A pandemia ampliou a capacidade dos laboratórios brasileiros de identificar rapidamente novos agentes infecciosos e processar exames de biologia molecular – Imagem: rathshiki / Shutterstock

A estrutura construída durante a pandemia precisa permanecer

Parte desse aprendizado ficou incorporado ao funcionamento dos laboratórios brasileiros. Segundo o patologista clínico Carlos Alberto Aita, “aprendemos muito a lidar com mais rapidez nesses casos”, principalmente graças à incorporação de novas tecnologias e à experiência acumulada durante a pandemia. Hoje, explica, exames moleculares, redes integradas de análise de dados e protocolos de resposta fazem parte da rotina dos laboratórios clínicos.

Para que essa capacidade não se perca, Aita defende investimento permanente na atualização tecnológica e na formação de profissionais. Também considera essencial manter redes estruturadas de compartilhamento de dados, capazes de reunir rapidamente informações produzidas em diferentes regiões do país e acelerar a identificação de novos surtos.

Preparação também significa autonomia

Além da estrutura assistencial, Gonzalo afirma que a pandemia expôs outra vulnerabilidade brasileira: a dependência de fornecedores internacionais durante crises globais. “Os Estados Unidos vão fornecer remédio para quem primeiro? Para eles”, resume. Segundo ele, o mesmo vale para outros grandes produtores de medicamentos, vacinas e equipamentos de saúde. Em uma pandemia, cada país tende a priorizar sua própria população.

Por isso, o sanitarista defende que o Brasil fortaleça sua capacidade de produzir vacinas, medicamentos, equipamentos e outros insumos considerados estratégicos. Mais do que uma política industrial, afirma, trata-se de uma questão de segurança sanitária para um país com mais de 200 milhões de habitantes.

Na avaliação de Gonzalo, fortalecer a capacidade industrial é apenas parte da preparação. O país também precisa consolidar uma rede nacional de vigilância epidemiológica, ampliar os centros de sequenciamento de microrganismos e investir continuamente em tecnologias voltadas ao diagnóstico, ao tratamento e à produção de insumos estratégicos. Sem essas estruturas, o país corre o risco de repetir parte das dificuldades enfrentadas durante a covid-19.

Preparação vale mais do que previsão

Se existe uma grande diferença entre 2020 e hoje, ela talvez não esteja apenas nos laboratórios ou nas fábricas de vacinas.

Depois da covid-19, a ciência demonstrou que consegue desenvolver diagnósticos, tratamentos e imunizantes em uma velocidade impensável há poucos anos. O maior gargalo deixou de ser apenas científico. Passou a envolver coordenação entre governos, universidades, indústria, serviços de saúde e organismos internacionais.

A próxima pandemia provavelmente encontrará ferramentas melhores do que as disponíveis em 2020. A questão é saber se elas chegarão às pessoas certas no momento certo.

Rapidez só faz diferença quando existe coordenação

A preparação para futuras pandemias depende de uma cadeia que começa na vigilância ambiental, passa pelos laboratórios, chega ao desenvolvimento de vacinas e termina na capacidade de colocar essas ferramentas em prática. Se qualquer um desses elos falha, a resposta perde velocidade.

Para Luana Araújo, a própria pandemia demonstrou que, quando ciência, financiamento e instituições trabalham de forma coordenada, o desenvolvimento tecnológico acelera de maneira significativa. “Quando organizados, coordenados, adequadamente financiados, com metas claras, a gente consegue acelerar e muito o desenvolvimento científico”, afirma.

“O primeiro desafio é transformar toda essa rapidez tecnológica em ação coletiva. Isso significa uma inteligência integrada entre vigilância, indústria, governo e sociedade.”

Luana Araújo, infectologista

Essa coordenação também depende de estruturas permanentes. Para Carlos Alberto Aita, “é essencial o investimento para atualização e capacitação tecnológica dos laboratórios”, para que a capacidade construída durante a covid-19 não desapareça quando a emergência sanitária termina.

Profissional de laboratório manipula amostra enquanto um mapa-múndi representa a cooperação internacional no monitoramento de doenças.
A resposta às próximas pandemias depende de redes internacionais capazes de compartilhar dados, desenvolver tecnologias e coordenar ações rapidamente – Imagem: vectorfusionart / Shutterstock

A próxima pandemia será um desafio coletivo

A covid-19 também mostrou que desenvolver novas tecnologias rapidamente não garante que elas cheguem a toda a população na mesma velocidade.

Enquanto países ricos conseguiram assegurar vacinas, medicamentos e testes diagnósticos logo nos primeiros meses da pandemia, muitas nações de baixa e média renda tiveram acesso tardio a essas ferramentas. Além de ampliar o impacto da doença, essa desigualdade favoreceu a circulação contínua do vírus e o surgimento de novas variantes.

Para Luana Araújo, essa diferença de acesso mostra que a preparação para futuras pandemias depende também de equidade na distribuição dessas tecnologias. Como resume a infectologista, “não existe ninguém seguro enquanto todo mundo não estiver seguro.”

A experiência da covid-19 mostrou que a velocidade da ciência, por si só, não basta. Preparar-se para a próxima pandemia significa manter sistemas de vigilância funcionando, investir continuamente em pesquisa, fortalecer laboratórios, ampliar a capacidade de produzir insumos estratégicos e garantir que essas tecnologias possam chegar rapidamente à população. Caso contrário, o mundo corre o risco de repetir não apenas os erros da última pandemia, mas também as desigualdades que marcaram sua resposta.

Em seis anos, a ciência mudou profundamente a forma de se preparar para futuras pandemias. A pergunta deixou de ser apenas qual será o próximo vírus. O desafio passou a ser construir sistemas capazes de reconhecer rapidamente qualquer nova ameaça e responder a ela antes que se transforme em uma crise global.

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